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sábado, 14 de dezembro de 2013

Crítica de Berceuse: por Bruno Siqueira.

Paulo Michelotto e Pollyanna Monteiro: entre o círculo e o quadrado
O quadrado é uma figura antidinâmica, ancorada sobre quatro lados. Simboliza a interrupção (ou parada), ou o instante antecipadamente retido. O quadrado implica uma ideia de estagnação, de solidificação; e até mesmo de estabilização na perfeição(...). O movimento livre e fácil é circular, arredondado, ao passo que a parada e a estabilidade se associam com figuras angulosas, linhas contrastantes e irregulares.
CHEVALIER; GHEERBRANT, 1993.
 
Rockaby foi escrito por Samuel Beckett em 1980, a pedido de Daniel Labeill, para fazer parte do festival que comemoraria o aniversário de 75 anos de nascimento do próprio escritor e dramaturgo irlandês. Tempos depois, Beckett traduz sua peça para o francês, entitulando-a de Berceuse. Enquanto o título inglês faz remeter à tradicional canção de ninar, o nome francês se refere a duas coisas: canção de ninar e cadeira de balanço. Dessa forma, o dramaturgo faz abrir ainda mais os sentidos que pode gerar sua obra.
Berceuse é uma canção de ninar, porque toda sua estrutura poética é construída a exemplo de uma partitura musical, numa melodia que se repete como numa canção de ninar. Berceuse é um texto que nos embala nas idas e vindas paralelísticas, como o movimento de uma cadeira de balanço. O deslizamento do significante não nos permite chegar a um centro do significado. Berceuse é isso e tudo o mais.
Paulo Michelotto, na VII Mostra de Teatro Capiba, nos apresentou um experimento cênico inspirado no texto de Beckett, mantendo o título da tradução francesa. Como artista “pós-contemporâneo”, Michelotto agradeceu a Beckett o prazer proporcionado pela leitura da tradução francesa e reivindicou o direito de, na encenação, transformar e ressignificar o texto.
Nessa transformação, o encenador faz viver o gênio do próprio Beckett. É como se, numa experiência de laboratório, mergulhássemos um bastão na água: ao vê-lo, sua aparência é torta, pelo efeito da refração; se quisermos que ele pareça reto, temos de quebrá-lo antes de mergulhá-lo na água. Ao fraturar o texto de Beckett, o encenador faz-nos ver, sob sua ótica, o próprio Beckett.
Michelotto retira da encenação toda a fala da personagem, que no texto aparece em off; põe-se em cena, diante de um microfone, e pede ao público para, ao longo do espetáculo, acompanhá-lo num mantra, dando-lhe a liberdade de criar seu próprio mantra, sua própria canção de ninar.
Pollyanna Monteiro entra em cena pela diagonal e começa a fazer uma coreografia, toda baseada nos conceitos do quadrado e do círculo. O desenho de seu corpo no espaço segue as linhas retas do quadrado. Seu corpo, porém, se expressa pelas curvas, pela sinuosidade, pelos movimentos circulares.
Essa partitura das ações corpóreas gera musicalidade. Trata-se de uma poética que faz realçar o conceito subjacente à dramaturgia de Beckett. A personagem oscila entre o som e o silêncio. Entre o corpo estático (do quadrado) e o corpo em movimento (do círculo). Entre o mundo estático e o mundo em movimento. Entre a existência estática e a existência em movimento. Entre a vida e a morte.
Do ponto de vista do acontecimento cênico, o espetáculo, que também oscila entre a dança e o teatro, contém seu registro quadrangular – do enquadramento, das marcações retamente estabelecidas – e abre-se para o circular, para o perigosamente sinuoso, quando apela para os sons provenientes da plateia, os quais proporcionarão, no instante-já da cena, do improviso, uma reação particular no corpo da bailarina-personagem.
Ou seja, o experimento cênico de Michelotto evidencia a concepção antiga do teatro como experiência do agora, que se encerra no momento em que se finda o espetáculo. Outra apresentação e outro público redundarão numa nova perspectiva da personagem e, por extensão, da cena. A personagem é vulnerável. A cena é vulnerável. O teatro é vulnerável. A arte é vulnerável. Somos vulneráveis.
Pollyanna Monteiro encontra-se no momento áureo de sua carreira. Com domínio da técnica do movimento e da improvisação, ganha presença cênica e consegue ter domínio absoluto do espaço.
Encerro esse comentário crítico afirmando que Paulo Michelotto e Pollyanna Monteiro são grandes parceiros na arte. Seus gênios artísticos se complementam, como nos conceitos de ying e yang. Se podemos constatar isso em seus outros experimentos cênicos, em Berceuse eles dão prova dessa verdade.
11 de dezembro de 2013
http://www.sesc-pe.com.br/hotsites/2013/capiba/critica-espetaculo.php

sábado, 17 de dezembro de 2011

Crítica sobre Ophélia/ Bruno Siqueira

A poesia e a graça de Ophélia

Fazia muito tempo que não me envolvia tanto com um espetáculo recifense como ocorreu em Ophélia, da Cia. de teatro e dança pós-contemporânea d’Improvizzo Gang, apresentado na V Mostra Capiba de Teatro nesta quarta-feira. Paulo Michelotto, que assina a dramaturgia, o design de cena, corpo, voz, maquiagem e a trilha musical, é, por acaso, meu colega de departamento no curso de Licenciatura em Teatro, da UFPE. Meu colega, meu próximo. Como não tinha antes parado para olhar com mais atenção seu trabalho artístico, Michelotto? Perdoe-me o delay.
Ophélia é um espetáculo que firma suas raízes na nossa contemporaneidade. A começar pela dramaturgia. O tão montado, citado e copiado Hamlet, do canônico William Shakespeare, serviu de inspiração ao dramaturgo, particularmente a personagem Ofélia.
A narrativa, em off, cita um trecho da fala da Rainha, quando relata a morte por afogamento da personagem Ofélia. O espectador adentra ainda mais na atmosfera poética da cena. É no final dessa narrativa que vai surgindo Ofélia, lânguida, vaporosa e belamente interpretada por Pollyanna Monteiro, a qual atravessa o espaço do público cantando uma canção num fio de voz, quase sofejante. O espaço do teatro Capiba se encontra tomado por uma fumaça perfumada. Sem bem o perceber, o espectador já está imerso na própria cena. 
O texto de Michelotto tem três páginas e os 60 minutos do espetáculo são compostos de muita improvisação a partir da matriz. Pollyanna Monteiro irradia beleza e jovialidade na sua personagem. Além disso, demonstra um domínio da cena e do público como poucos atores que tentam empreender esse gênero de teatro. O plateia fica nas suas mãos, de forma que assente em participar do espetáculo sempre que por ela é solicitada.
Michelotto se relaciona com o texto de Shakespeare pelo viés da paródia. Toda a performatividade da atriz se estabelece pelo diálogo entre a poesia shakespeareana e o discurso prosaico e crítico da contemporaneidade, o que nos permite ver com clareza como encenador e atriz leem o mito a partir do nosso olhar histórico.
O conceito da encenação se centra na juventude que emana da personagem-título. A juventude que é bela, que está perdida num caos político, que é frágil, que é ousada, que é fugaz... que é fugaz... que é fugaz...No entanto, a cena não mergulha na melancolia. Pelo contrário, celebra a juventude de forma poética e bem humorada. Bastante humorada.
Aliás, o mérito maior de Michelotto foi não se fechar na tragicidade do drama shakespeareano ou expressar uma suposta seriedade que a tradição imputa a Shakespeare. O dramaturgo/encenador soube dosar aspectos dramáticos com aspectos cômicos, este, sim, um procedimento muito mais próximo do teatro de Shakespeare. A sensação que ficou para mim é que o espetáculo Ophélia me aproximou muito mais do bardo inglês do que outros espetáculos que partiram de seus textos.
Teatro como arte, teatro como celebração, teatro como um compartilhar de experiência, teatro como poesia, teatro como espaço para discussões. Eis os qualificativos que identifico no trabalho da Cia. de teatro e dança pós-contemporânea d’Improvizzo Gang. Parabéns ao grupo!
07 de dezembro de 2011
Por Bruno Siqueira

Tradução